Pesquisa

domingo, 7 de abril de 2013

O som ao redor - 2012



Por Cleidson Lourenço.

A classe média está sob os holofotes, e não é de hoje. Nos últimos dez anos as transformações político-econômicas propiciaram uma mobilidade social sem precedentes, permitindo a superação da linha da pobreza para um enorme contingente de indivíduos e também a emergência dos menos pobres ao valioso status social de classe média. Como um rastilho de pólvora, as mudanças rapidamente provocaram uma corrida por informação sobre essa nova configuração: o censo se modernizou, os questionários gradualmente se tornaram mais intrusivos. Ofegantes, as empresas precisavam decodificar um perfil para tornar a publicidade mais sensível; os partidos necessitavam saber seus anseios e a partir deles afinar a retórica e torna-la atraente.

Tanta atenção provocou incômodo, e da “nova classe média” as generalizações passaram à especulação sobre toda a classe. Afinal, o que ela representaria? A opinião recorrente a descreve como uma trincheira, protegendo a elite à medida em que absorve seus ideais e estilos de vida, enxergando-se como pertencente a ela. No entanto uma pergunta potencialmente mais esclarecedora é também a mais rara: de onde essa classe surgiu, como sua história ajuda a entender a conjuntura atual? Essas questões parecem contagiar Kleber Mendonça Filho, que debruça suas lentes (e microfones) sobre a Recife atual, e no seu passado escravista, para representar o que pensa ser as ambições e preocupações da classe média.

Divido em três atos, o filme focaliza um bairro nobre da capital no momento em que uma equipe particular de segurança aparece oferendo seus serviços. Não há uma trama delimitada e sim um passeio da narrativa pelo cotidiano e relacionamentos dessa vizinhança, com especial atenção à três personagens: João, um corretor de imóveis empregado num negócio familiar de seu avô Francisco; Bia, uma moradora local, dona de casa e mãe de dois filhos, que tenta superar a opressão de viver cercada por grades usando seus eletrodomésticos, seja para silenciar os cachorros da vizinhança, seja para inventar formas exóticas de recreação. Já Clodoaldo (Irandhir Santos) é o chefe da empresa de segurança a negociar com a autoridade local o serviço particular de proteção.

A exploração dos personagens é feita sob um olhar voyeur, objetivo, capturando com distanciamento seu objeto e, por isso mesmo, pretensiosamente realista. É por esse estilo de registro que observamos a negociação de João com uma senhora a pedir redução do aluguel de um imóvel cujo último proprietário cometeu suicídio, ou os recados amorosos escritos no pavimento, só para serem borrados pela chuva na sequencia seguinte. Com indiscrição espionamos os agarramentos de um jovem casal adolescente e as manias curiosas de Bia, que despacha os filhos para o inglês para ficar só, comprar maconha e se masturbar com a vibração da máquina de lavar.

Essas pequenas transgressões confrontam a mesmice do cotidiano de isolamento nos prédios, numa tentativa de lhe conferir mais sabor. Ao mesmo tempo, busca-se desenhar um perfil comportamental de classe média, diferente daquele idealizado pelos meios de mídia como sendo da elite, a qual a primeira buscaria imitar. Longe da higiene comportamental a prescrever uma relação familiar no momento da refeição, no jantar da família de Bia todos parecem estar com os pensamentos em outro lugar:  os filhos questionam a necessidade de aulas particulares de inglês quando já aprendem o idioma na escola. A menção faz Bia sorrir, talvez relembrando dos momentos propiciados por essa ausência. A discrepância fica explícita quando a câmera passa a enquadrar a televisão da sala ao lado, exibindo um balé de talheres e taças sob a harmonia de um jantar de gala.

Clique para ampliar
Os contornos da classe ficam mais evidentes na sugestão de sua natureza individualista e apática frente aos problemas alheios, como na famigerada reunião de condomínio em que os moradores discutem a demissão do zelador. O trabalhador é flagrado cochilando constantemente, e assim submetendo os inquilinos a grandes perigos, como o de receber sua Veja fora do saco. Apesar de idoso, em idade de se aposentar, sua atitude não é absolvida por eles, que o acusam de incompetência e desonestidade, já que estaria dormindo para apressar a demissão e o recebimento dos direitos. Incapazes de entender a situação por uma outra lógica que não a deles, quase decidem unanimemente pela demissão por justa causa quando João, o corretor, tenta fazê-los perceber a crueldade dessa resolução. João é logo contestado, mas não enfrenta os moradores, aproveitando o toque do celular para fugir da situação. Mesmo quando é capaz de pensar fora da caixa, a classe média de Mendonça Filho evita qualquer atrito político, exceto quando se trata de uma luta que lhe traga vantagens.

 Não podemos esquecer o som, utilizado aqui nos mais diferentes contextos e sempre enriquecedor à narrativa. Ampliando o volume de certos elementos o diretor pontua sentimentos, conduz nossa atenção e, principalmente, cria tensão. O ruído estridente da lixadeira elétrica demarca a presença de um trabalhador nas vizinhanças, assim como o eco de marteladas ouvido por Bruno, quando olha do terraço os edifícios cercados por uma favela crescente. É principalmente através do som que se demarca o conflito de classes, cujo ápice é representado na paranoia da classe média com a expectativa constante de uma revolta da “ralé”. Um dos maiores motivos para a auto reclusão, esta é explorada sombriamente num pesadelo da filha de Bia, no qual uma invasão dos favelados acontece no condomínio enquanto ela observa tudo, aterrorizada, da janela do quarto.

Mas a chave para a compreensão dessas tensões está no passado, e nesse sentido o pensamento de Kleber Mendonça é bem Freyriano. Se no prólogo o diretor nos mostra fotos antigas, entre elas a de um fazendeiro e sua multidão de dependentes, segurando papéis (títulos eleitorais?), no presente temos Francisco, coronel local, dono de quase todas as casas da vizinhança, paternalista, descendente de Senhor de engenho do interior. É em torno dele que se organizam as relações familiares, ele é a lei:  dá a palavra final sobre a instalação da equipe de segurança “contanto que não se metam com meu neto Dinho”, um “marginal bem nascido”. Desafia até a autoridade da natureza, tomando banhos à noite em áreas propensas à ataques de tubarão.

É também sintomático que o passado seja lembrado por estes personagens com nostalgia. Quando Francisco, seu neto João e a namorada visitam o engenho, rememoram com saudade o velho cinema em ruínas para depois se refrescarem numa queda d’água. Os moradores da casa grande parecem não lembrar-se da senzala, dos indivíduos escravizados que morreram construindo o patrimônio para outrem, e do suor de seus descendentes, cuja servidão permitiu a manutenção de riqueza e status por eles, através dos tempos. Mas o espectador não é furtado de ver todo o sangue em que estão encharcados.

Clique para ampliar
Eis o entrave a ser superado: O som ao redor questiona essa alienação do passado, evocando à classe média sua parcela de responsabilidade sobre a tensão e os problemas dos quais ela se esconde atrás dos muros do condomínio, relembrando que entre a construção histórica das desigualdades sociais do país e a acumulação de riqueza de alguns existe um passado em comum. E se o caminho sugerido para a superação principia com essa tomada de consciência, o recado para os que se mantém ignorantes é bastante claro: assim como Francisco, pagarão os juros da dívida. E se existe algo que poucos sairão sem perceber neste filme é que as grades não isentam nem protegem ninguém. 





Ficha Técnica: 
O som ao redor – 2012, 131 minutos.
Origem: Brasil.
Gênero: Drama, Thriller.
Direção|Roteiro: Kleber Mendonça Filho.
Fotografia: Fabrício Tadeu.
Edição de som: Pablo Lamar.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A viagem (Cloud Atlas) - 2012


A viagem (Cloud Atlas) – 2012, Cor, 172 minutos.
Origem: Alemanha, EUA, Japão, Singapura.
Gênero: Drama, Romance, Mistério, Ficção-Científica.
Direção: Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski.
Roteiro: Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski.
Fotografia: Frank Griebe e John Toll.
Trilha sonora: Tom Tykwer, Rinhold Heil e Johnny Klimek.
Lançamento no Brasil: 11 de janeiro de 2013.


Por Cleidson Lourenço

A viagem (Cloud Atlas), mais recente esforço dos irmãos Wachowsky, desta vez juntos a Tom Tykwer, é fascinante. Ainda que a realização não alcance plenamente a ambiciosa premissa, o resultado é mais que satisfatório tanto pelo saldo emocional quanto pelos questionamentos que suscita.

O roteiro, adaptação do romance homônimo de David Mitchell pelos diretores do longa, apresenta seis histórias de gêneros diversos, situadas em diferentes épocas e lugares, cruzando-as a partir de um princípio derivado de correntes religiosas, científicas e filosóficas, como a teoria do caos, princípio da ação e reação, física quântica, espiritismo e carma: todo ato de bondade, assim como todo crime, repercute através dos tempos, gera reações equivalentes e molda o curso dos acontecimentos. São histórias inicialmente interessantes, mas de decorrer previsível. Funcionam graças ao dinamismo da montagem, nos permitindo vislumbrar cada história tempo suficiente apenas para encontrar um gancho visual ou narrativo que nos empurre para a próxima.

A escolha de utilizar os mesmos atores em todas as histórias, aludindo à ideia de reencarnação, dá certa organicidade à narrativa. Alguns estão irreconhecíveis em suas transformações graças ao trabalho da equipe de maquiagem. Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae e Ben Whishaw garantem boa parte do espetáculo, oferecendo performances esmeradas em papéis que variam não só em personalidade e idade, mas em fenótipo e até mesmo sexo. Assim, Tom Hanks personifica desde um médico inescrupuloso do século XIX a um cientista nuclear de meia idade nos anos 70, ou mesmo um sobrevivente numa precária sociedade pós-apocalíptica, sempre mantendo um nível de detalhamento sobrecomum em suas composições, considerando a quantidade de papéis que representa. Outras grandes atuações vêm de Jim Broadbent, Doona Bae e Hugo Weaving, que aqui interpreta todos os vilões da película.

Tom Hanks em seus vários papéis.
A eficiência da maquiagem na composição dos personagens é uma faca de dois gumes. Apesar de apresentar excelência na inserção de próteses e pequenos detalhes que ajudam a compor os personagens, a ousadia na transformação completa de fenótipo não é bem realizada, resultando num artificialismo escancarado, como no caso de Halle Berry interpretando a judia Jocasta Ayrs, caucasiana. Outros pontos de excelência técnica são a direção de arte e figurino, competentes em recriar estilos visuais de épocas históricas e em imaginar os cenários do futuro. Atenção especial à fascinante Neo Seul, onde a prevalência de um capitalismo em nível muito acentuado transparece em cada detalhe, como na arquitetura, estritamente funcional. Toda intervenção estética, mesmo a cor, é projetada por holograma sobre o concreto cinza.

Halle Berry como Jocasta Ayrs
             A trilha sonora, composta por Tom Tykwer com colaboração de Reinhold Heil e Johnny Klimek é riquíssima, passeia com maestria por extremos de uma narrativa que vai do histórico ao futurista e apresenta variações muito imaginativas do tema principal, um trabalho memorável que desde já entra para minha lista de favoritos. A fotografia segue a cartilha do épico, oferecendo planos gerais para destacar os belos e sofisticados cenários, closes para as acrobacias emocionais dos atores em seus vários papéis, planos detalhe para destacar elementos de ligação entre as narrativas. O maior truque é que estas ligações vão ficando mais explícitas ao decorrer do filme, de modo que em determinado momento as reviravoltas passam a acontecer em cadeia, e o clímax compartilhado é multiplicado por cada história.

"Eu não serei submetida ao abuso criminoso"

Por detrás de todas as camadas teóricas que misturam filosofia, ciência e religião na tessitura de uma trama capaz de emular a complexidade da vida, o ponto de discussão mais interessante da obra, contudo, é o ideológico. A viagem lhe dá o tempo todo com dois extremos morais, um baseado na sobrevivência do mais apto expresso num darwinismo social cujo pináculo é uma versão extremada do capitalismo, que se choca com outro, de inspiração socialista, baseado num profundo senso de comunidade a pregar o pensamento de que nossas vidas não pertencem a nós mesmos, mas à coletividade. A narrativa se constrói sobre o confronto dessas ideias e a afirmação desse ideal subversor a nos incitar contra toda restrição à liberdade.

Localizemos a obra historicamente: num momento em que a conjuntura política mundial é instável, palco de lutas frequentes sendo travadas contra o cerceamento de direitos, não podemos fechar os olhos para a ousada mensagem da obra dos Wachowsky. Diferente de Matrix, aqui eles não barateiam filosofias em prol do desenvolvimento da história, mas moldam toda a arquitetura narrativa, sacrificando até o que poderia ter de mais complexo e enriquecedor do ponto de vista cinematográfico, para expandir a legibilidade dessa mensagem à sua audiência. Com muita honestidade, A viagem exemplifica o exercício de coragem que propõe a seu espectador.



sexta-feira, 18 de maio de 2012

Millennium Actress (Sennen joyu) - 2001


Millennium Actress (Sennen Joyû) – 2001, Cor, 87 minutos.
Origem: Japão.
Gênero: Animação, drama, romance.
Direção: Satoshi Kon.
Roteiro:  Satoshi Kon, Sadayuki Murai.
Fotografia: Hisao Shirai.
Trilha sonora: Susumu Hirasawa.
Lançamento no Brasil: (ainda não lançado).















Sobre o diretor

Satoshi Kon foi um diretor muito ousado. Nascido em 1963 e falecido em 2007 devido a um câncer pancreático, foi assistente e discípulo de Katsushiro Otomo, mente por trás da criação de Akira, tanto o mangá quanto o anime que se tornou um clássico mundial. A expertise adquirida através do contato com o mestre foi empregada, entretanto, para dar forma a um estilo completamente seu.

         Escrevia os roteiros dos filmes que dirigia, sempre utilizando uma abordagem de forte cunho psicológico, aliada a uma estética surrealista, quase onírica, compondo uma narrativa em que realidade e fantasia pareciam se confundir. Uma tese permeia todas as suas obras: Estas duas esferas da existência, fantasia e realidade, seriam assim tão diferentes? Se o que julgamos enquanto fictício é capaz de gerar uma experiência possível de ser sentida, compartilhada, vivenciada, ela não se materializa e passa então a ser parte do real?


Satoshi Kon.

Para defender tal premissa, Kon criou roteiros muito complexos, que em mãos incapazes poderiam resultar em catástrofe. Mas demonstrando forte domínio da técnica e uma sensibilidade incomum, ele conduziu com maestria suas audaciosas obras, conseguindo um grau impressionante de imersão.

Em Perfect Blue (1997), por exemplo, acompanhamos o drama psicológico da cantora Mima, que encerra precocemente sua carreira na música pop japonesa para tentar a de atriz, mas quando as pressões da nova profissão entram em choque com sua antiga personalidade pública acaba entrando em colapso. O contexto sempre é muito rico: no Japão, como aqui no ocidente, as artistas pop têm de criar uma personagem para o palco. As garotas, geralmente bem jovens, devem personificar o tipo angelical, a fim de  se encaixar com o modelo de pureza idealizado pelo público. Mima está envelhecendo, e busca no cinema maior longevidade no show business. Mas para o antigo público de Mima as atrizes não são bem vistas: são mulheres subversivas, não representam, e sim vivem o que fazem no estúdio, são sujas. A violência da mudança de contexto leva Mima a enxergar a si mesma enquanto duas: a atriz e a personagem angelical a lhe julgar, perseguindo-a nos espelhos, nos vagões do metrô. À medida em que Mima vai perdendo sua referência de realidade, somos induzidos a compartilhar sua paranóia. Qualquer semelhança com Cisne Negro de Darren Aronofsky não é mera coincidência.




Já em Páprika (2006), cientistas desenvolvem uma máquina capaz de tornar os sonhos visualizáveis, graváveis em vídeo e compartilháveis, permitindo então o estudo de doenças psicológicas através da viagem ao inconsciente do paciente. Contudo um dos aparelhos é roubado e usado por terroristas para atacar os cientistas envolvidos na criação da tecnologia, alterando sua percepção de realidade e os prendendo num pesadelo compartilhado. Para descobrir quem está por trás disso e suas intenções, uma doutora desenvolve um alter-ego chamado Páprika, com liberdade irrestrita para passear pelos sonhos. A metáfora aqui é com a internet, um mundo onde podemos ser qualquer pessoa, um espaço que outorgamos o adjetivo de virtual, mas para nossa mente funciona como uma extensão do real. O empréstimo da ideia pelo cinema do ocidente foi mais brando: em A origem, de Christopher Nolan, encontramos a premissa de uma máquina para compartilhamentos de sonhos, mas a filosofia desenvolvida é totalmente diversa.


A doutora Atsuko, à direita, e seu alter-ego, Páprika.

Depois dessa introdução, podemos falar da que considero a obra mais emblemática e poderosa de Kon: Millennium Actress (2001) conta a história de Chiyoko, uma atriz que abandona a carreira no auge do sucesso, mas decide contar sua vida e os motivos de sua reclusão antes da morte. Voltando ao passado de Chiyoko na intenção de entender o mistério, somos lançados numa narrativa que mescla memória, fantasia e realidade com uma profunda reflexão sobre a natureza do cinema em si.

            Resenha

O secular estúdio cinematográfico Ginei foi demolido. Na tentativa de salvar parte da história do cinema japonês o produtor Genya e seu cameraman resgatam tudo o que podem para produzir um documentário. Porém, falta cobrir a maior lacuna desta história, o paradeiro de Chiyoko - estrela de maior sucesso do Ginei - distante das câmeras há mais de trinta anos. Descoberto o endereço, ambos sobem uma íngreme ladeira em direção à residência da atriz, quando o cético cameraman exclama que ela já deve estar velha e gagá. Recebe como resposta uma bolsada na cara: "- Ela nunca envelhecerá!", diz Genya, fã incondicional de Chiyoko.

Lá chegando, para a surpresa de Genya, encontram uma velha e adoecida Chiyoko. Como presente para a atriz, o produtor lhe entrega uma pequena chave, algo do seu passado que a deixa muito pensativa. Ao perguntar o que a chave abre, recebe como resposta: “- Essa é a chave para a coisa mais importante que existe”. Câmera em punho, eles filmam o depoimento da atriz, que resolve abrir sua história e contar o verdadeiro motivo para seu envolvimento com o cinema.




Existe um bom trabalho de contextualização histórica, situando o nascimento de Chiyoko em 1923, ano em que um grande terremoto arrasou metade do Japão. A partir dessa década, o país se envolve crescentemente nos acontecimentos que culminarão na Segunda Guerra Mundial, e o filme passeia pelos efeitos do conflito como também pelas repercussões do pós-guerra no oriente. A abordagem inicial é de uma genialidade fantástica.

                Enquanto a atriz conta sua infância, visualizamos fotografias de sua época escolar. Nelas, várias crianças sorridentes seguram pequenas bandeirolas do Japão, enquanto Chiyoko ostenta uma expressão de incômodo. Ao contrário de todos os elementos estáticos da fotografia, a pequena estudante se movimenta entre os fantasmas de seu passado, corre entre eles.




                A fotografia, como sabemos, foi a ancestral do cinema e roubou da pintura o posto de melhor forma de representar o real. Contudo, a natureza da fotografia impunha um limite de envolvimento entre o observador e a realidade retratada: a imagem estática aparece como o vestígio de um acontecimento já ocorrido, um momento no espaço-tempo do qual ele não participa, gerando uma sensação de exterioridade. O cinema se sobrepôs à fotografia com uma melhoria colossal nesse quesito, já que com o movimento, a situação retratada aparece como um acontecimento em curso, sugestionando nossa mente a aceitar a realidade do fato, revestindo a fantasia do que é mostrado com a substância dos nossos anseios, nossas experiências.

Genya e seu cameraman não conseguem acompanhar
o ritmo da jovem Chiyoko.

Enquanto a pequena Chiyoko passeia pelas ruas de sua infância, nos deparamos com Ganey e seu cameraman, materializados na reconstituição da memória da atriz, como figurantes curiosos. Kon realiza outra alegoria, desta vez sobre a relação de envolvimento dos espectadores com a história que lhes é contada, mostrando como somos absorvidos e impelidos a criticar, analisar o que nos é exposto, influenciando e nos deixando influenciar pela obra cinematográfica.

Mas voltemos à história. Adolescente, Chiyoko conhece um fugitivo da polícia, e por ele se apaixona perdidamente. Como prova de amor, dele recebe uma chave, um objeto para os unir após sua partida e que deve ser devolvido, numa promessa de reencontro. Enquanto esse amor amadurecia em seu coração, recebe a proposta de um diretor para estrelar em um de seus filmes. Coincidentemente, o set de filmagens ficava localizado próximo do local para onde o fugitivo teria debandado. E assim, ela decide ir na esperança de reencontrar seu amado.




Acontece que os papéis oferecidos para Chiyoko apresentam uma semelhança intrigante com sua história: sempre mulheres que partem em busca de seu amor, porém sem nunca encontrá-lo. Tal semelhança permite que ela realize atuações extraordinárias, tornando a idéia do reencontro dos amantes, para o diretor,  algo absolutamente desinteressante. 

As semelhanças entre a busca da atriz e os roteiros se intensificam, reeditando fragmentos de seu passado em cenas situadas, por exemplo, no Japão Medieval, como uma princesa em busca de seu amado, fugitivo do imperador, ou como uma gueixa apaixonada, mas proibida de viver esse sentimento devido à sua condição. A edição de Satoshi Terauchi funciona brilhamentemente no sentido de costurar com coesão a trama dos filmes à realidade de Chiyoko, ajudando Kon a alcançar o seu objetivo: assim como a atriz, perdemos por alguns momentos a percepção do que é verdade e o que é ficção em sua vida. Ficamos totalmente imersos em sua experiência. A trilha sonora de Susumu Hirasawa é igualmente brilhante, e cumpre um papel fundamental para a construção da atmosfera do filme, que varia entre vibrantes cenas de ação, momentos de melancolia e confusão vividos pela protagonista. 

Chiyoko vivencia em toda sua filmografia um milênio da história japonesa esperando que sua imagem pudesse dar uma indicação de como encontrá-la. Ela somente abandona a carreira ao perceber que o tempo passou, e a feição jovem pela qual o fugitivo se apaixonara não mais existe




Genya, o produtor, descobre que o fugitivo faleceu a muito tempo, não resistindo ao rigoroso interrogatório imposto pela polícia à época. Quando decide solucionar o mistério, o estado de saúde da atriz se agrava. Consegue chegar a tempo de ouvir suas últimas palavras: “A parte que eu realmente amei foi procurá-lo.”.

Satoshi Kon encerra sua obra com uma reflexão importante sobre o fascínio que o cinema exerce sobre nós: ao final, a trajetória de uma pessoa que devotou sua vida em busca de um fantasma não nos parece nem um pouco patética. Assim como a atriz, o espectador não teria acompanhado ao longo de quase duas horas de projeção uma ilusão? O diretor, então, se profissionaliza em forjar o convencimento a partir da ficção. O que saímos ganhando é algo que não se pode precisar ao certo o grau de realidade, mas é um laço poderoso a nos unir em torno da paixão pelo cinema: o compartilhamento de nossas experiências.

                                                           

terça-feira, 24 de abril de 2012

Paria (Pariah) - 2011

Pária (Pariah) – 2011, Cor, 103 minutos.
Direção: Dee Rees.
Roteiro:  Dee Rees.
Cinematografia:  Bradford Young.
Elenco original:  Adepero Oduye, Kim Wayans e Aasha Davis .
Lançamento no Brasil: (ainda não lançado).




     










   A melhor definição pra pária é “aquele que não cumpre seu papel social.”. Ao não assumir a identidade que o grupo social determina, ou ao não se encaixar nos requisitos predeterminados de sociabilidade, o indivíduo passa por um processo de exclusão, voluntário ou não. Na Índia, por exemplo, temos os dálits, ou intocáveis. Apesar de que na atualidade, a mobilidade social dos hindus esteja mais flexível, ainda são os referenciais mais lembrados. E apesar deste pequeno prólogo, não é sobre os dálits hindus que a diretora e roteirista Dee Rees quer falar em seu primeiro filme. Ao retratar o processo de amadurecimento de uma adolescente gay que está desvendando sua identidade, Rees nos mostra como em nossa sociedade criamos nossas párias. Processo aqui é, de fato, a palavra chave.

   Somos apresentados à personagem principal, Alike (ou Lee), durante uma noitada numa boate de streaper para lésbicas com sua amiga Laura. Nos trajes “de garoto” e na sua postura, Lee afirma sua sexualidade, embora sinta timidez em se juntar às amigas no assédio à pole dancer, ou mesmo no flerte com outras garotas na pista de dança. É como se ela tateasse os modos de vida de uma identidade que a define, mas que não lhe é totalmente conhecida. Lee, como dito, é uma adolescente.

   No seu caminho para casa, percebemos suas peculiaridades. Lee insiste que sua amiga não lhe acompanhe até sua casa, e com certa violência a induz a descer na parada próxima. Afundando no banco, ela começa a retirar o boné, o casaco, colocar os brincos, mostrar o cabelo. Com relutância e embaraço, ela se “desmonta” de Lee e volta a ser Alike. Ao atentar para esses detalhes, percebemos como a observação intimista de Rees do cotidiano de Alike é fenomental. Filha mais velha de uma família tradicional, negra, ela sofre por não cumprir bem o papel social que lhe é designado.
  
    Num momento à mesa, enquanto sua irmã mais nova conversa descontraidamente sobre fazer sexo com rapazes na festa do baile, Alike desconversa quando sua mãe, religiosa, prefere inquirir sobre sua falta de interesse em ir. Encontra uma fuga para esta conversa em seu pai, sempre distante, mas que tende a concordar mais com a filha que com a esposa. Apesar de chamá-la de “minha garota”, o relacionamento entre os dois é mais parecido com o de pai e filho. O relacionamento conturbado entre mãe e filha advém justamente dessa falta de entendimento e identificação entre ambas, agravada regularmente pelas "tentativas de aproximação" da superprotetora mãe, na forma de presentes como vestidos. Testes, na verdade, esse pequenos subornos são feitos com intenção de sondar e converter sua filha, num caminho totalmente contrário à uma tentativa de entendimento. Ademais, a heteronormatividade de sua família não lhe parece de nenhuma forma atraente, uma vez que seus pais vivem um casamento de aparência, e telefonemas recebidos pelo seu pai durante a madrugada parecem lhe mostrar o real motivo para o distanciamento do mesmo.


     Na escola, Alike vive frequentemente isolada, interagindo apenas com sua professora de literatura, para a qual lê os textos que escreve. Numa cena de particular simbolismo, ela declama um poema descrevendo a metamorfose de uma lagarta, poema considerado pela professora como apenas OK. Claramente frustrada, Lee escuta que falta profundidade, algo que confira ao seu texto uma real percepção do processo para além da aparência. Neste ambiente, o preconceito está igualmente presente, porém os comentários que mais afetam a protagonista vêm de outras garotas, que acham ela atraente, mas incompleta. "Ao menos se ela fosse mais dura", uma comenta. Mais do que o fato de ser lésbica, incomoda a indefinição derivada de seu processo de crescimento: a incapacidade de oferecer a segurança de uma identidade fixa, seja de "cara", seja de "dama", insegurança aumentada pela inexperiência no sexo, uma vez que Lee ainda é virgem.

  Na busca por definição, Alike se arvora na amizade com Laura, mais velha, lésbica assumida, independente, embora de baixa instrução. Uma amizade guiada tanto pela busca por experiência quanto pela identificação de Laura. Num dos muitos movimentos inteligentes do roteiro, Rees separa as amigas para introduzir um novo viés para sua história de amadurecimento adolescente: Lee é obrigada a conviver, graças à mãe, com uma garota lésbica, só que ainda no armário. A aproximação das duas, no entanto, aumenta a crise de Lee: o que parecia um promissor início de namoro apenas trás decepção. No sexo ela demonstra sua inexperiência, frustrando sua amante, que a faz compreender a frivolidade da relação que tiveram, exigindo segredo sobre o acontecido.


   A definição acontece, entretanto, num momento ainda mais crítico. Numa briga entre seus pais, promovida pela desconfiança da mãe em relação aos telefonemas do marido, a diretora desacraliza de vez o paraíso heterossexual que permeava o hipócrita discurso da mãe de Lee, para em seguida demonstrar sobre quais bases ele é sacralizado. Quando Lee se põe entre os dois para afastá-los, sua mãe acusa o pai de responsável pelo comportamento "desviante" da filha, obrigando-a a confessar sua sexualidade. A briga se desfaz, ganha um novo enfoque. Ao confessar, ela une os pais sob o signo do desconsolo ao tempo em que ela mesma se torna o verdadeiro problema. Após ser agredida fisicamente pela mãe, deixa a casa.

    Rees desempenha um trabalho exemplar também em extrair de seus atores boas atuações, sobretudo de Adepero Oduye, que interpreta Alike. Além de ser extremamente convincente em cada papel social que representa, o seu trabalho com o olhar é notável, conseguindo demonstrar esperança, força, no seu choro contido, e completude, quando finalmente compreende o funcionamento da sociedade e encontra nela seu lugar. A trilha sonora é eficaz, composta basicamente de música underground, e a fotografia funciona, apesar da paleta digna de filtro do instagram, ousando em alguns momentos cruciais. A explosão de branco nas cenas finais é um exemplo interessante dessa ousadia, embora não realmente excepcional.

Dee Rees, diretora e roteirista
Estou quebrada. Estou livre.
    Ao final, Lee declama um novo poema, descrevendo o amadurecimento por outra metáfora, como um ser que apenas se quebra, não para revelar outro ser dentro de si, e sim representando, pelos próprios cacos, os machucados, as cicatrizes, da onde advém a liberdade. É com essa intimidade toda que Rees faz seu debut no cinema, com um roteiro sólido, uma história forte, um olhar antropológico apurado e uma narrativa inteligente o bastante para tornar este um dos grandes feitos de 2011.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Nao me abandone jamais (Never let me go) - 2010

 Não me abandone jamais (Never let me go) – 2010, Cor, 103 minutos.
Direção: Mark Romanek.
Roteiro: de Alex Garland, baseado no romance de Kazuo Ishiguro.
Cinematografia: Adam Kimmel.
Trilha Sonora: Rachel Portman.
Elenco original: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley.
Lançamento no Brasil: 18 de Março de 2011.













Não me abandone jamais é uma adaptação do diretor Mark Romanek de um romance homônimo, escrito por Kazuo Ishiguro. Neste filme, somos transportados a uma realidade alternativa, na qual, em 1950, a técnica de clonagem já foi completamente dominada e a humanidade teria encontrado a cura para todas as doenças, superando a expectativa de vida de 100 anos. Essa utopia acaba se revelando, na verdade, uma realidade distópica à medida em que nos é permitido saber por quais meios a medicina alcançou esse “milagre”.

Somos então levados a acompanhar a rotina de Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley), estudantes de um rígido internato inglês. Nele, as crianças são tratadas com uma atenção severa e um monitoramento constante, incentivadas a praticar esportes, encenar interação social através de peças, e produzir arte. Através do discursos diários, proferidos pela diretora Emily (uma ótima atuação de Charlotte Rampling) elas são convencidas de que são crianças especiais.



O roteiro de Alex Garland entrega, entretanto, elementos para pensarmos o contrário. As crianças não exibem dotes especiais, como uma inteligência superior, ou força física, nem mesmo possuem aptidão sobrecomum para a arte. Logo percebemos  que o internato não é um espaço de ensino, e sim de alienação: um lugar onde as crianças são preparadas, moldadas para cumprir seu "papel" social. Numa cena de particular força e simbolismo, uma professora inquire um aluno sobre o motivo de este, ao jogar beisebol com amigos, não apanhar a bola que caiu para além dos limites da escola. Obtém como resposta dos estudantes estórias mirabolantes sobre a morte dos que violaram essa fronteira, contadas com convicção assustadora. Essa crença absoluta nos valores ensinados pela instituição as prepara para aceitar o destino que lhes será posteriormente revelado.

 Num rompante de inconformismo com a postura mantida no lugar, uma professora recém contratada quebra o silêncio e expõe às crianças o verdadeiro caráter de sua existência “especial”: eles não teriam uma vida própria, nem um destino comum. Sequer chegariam a viver plenamente a maturidade. Seriam apenas clones, repositores de órgãos para as pessoas “reais”. A seu tempo, pouco após atingirem a fase adulta, seria submetidos a ciclos cirúrgicos nos quais, gradativamente, teriam seus órgãos retirados e dispostos para o benefício de outros. Essa ação, institucionalizada, legalizada, era denominada doação.

Esse contexto que pode parecer bizarro ao leitor, é no filme, entretanto, mostrado com naturalidade, o que favorece a criação de uma atmosfera de desolação do espectador frente ao conformismo dos personagens. Contudo a escolha de ter criado, dentro de um contexto tão rico para análise política e econômica, uma triste história de amor talvez desperte polêmica: Kathy, ainda no internato, se apaixona por Tommy mas não revela publicamente seu sentimento. Sua companheira de internato Ruth, no entanto, ao perceber o interesse da amiga, investe sobre Tommy e engata um relacionamento que se mantém mesmo quando alcançam a idade adulta, e deixam o internato.



No breve espaço de tempo antes das doações, Kathy tem que conviver diariamente com o romance entre Tommy e sua amiga. Frente à impossibilidade de viver seu amor, ela decide se tornar assistente nas doações de outros clones, conseguindo adiar a sua própria por um tempo. Por obra do acaso, Kathy volta a reencontrar seus amigos, e por intermédio de uma arrependida Ruth, consegue viver por um curto período de tempo o amor negado anteriormente. Após perder Tommy em sua terceira doação, e descobrir que em breve ela iniciará seu ciclo, Kathy entrega uma reflexão bastante humanista, senão socialista: “será que as pessoas a quem servimos não passam pelos mesmos problemas que nós?”. A incompletude, incapacidade de plena realização frente ao tempo finito que nos resta  é o nível que nos iguala, é o que nos une na condição humana, independente da nossa posição na cadeia alimentar social.



Quanto aos aspectos técnicos, a fotografia consiste basicamente em planos abertos de paisagens, na maioria das vezes vazias, campos com poucas árvores, ruas e praias desertas, compondo o ambiente de desolação e simbolizando o apartamento social dos personagens. A elegante trilha sonora de Rachel Portman é igualmente eficiente, complementando as imagens de um filme que nos seus momentos principais evoca uma tristeza que angustia, sem cair no melodrama. A atuação de destaque sem dúvida é a de Carey Mulligan e sua Kathy, que entrega em seu olhar perdido, tanto a conformação quanto a curiosidade, a vontade de achar o significado para sua existência num contexto tão opressor. 

Apesar do poder dos temas abordados, o que mais me deixou perplexo sobre esta ficção científica foi sua diferença em relação às distopias produzidas durante as décadas de 80, 90. Enquanto obras como Brazil (1985) usavam apenas indícios presentes na realidade do período como matéria prima para a ficção, projetando um futuro caótico, geralmente uma versão exagerada da realidade, em Não me abandone jamais não há nada que seja improvável.  Suas analogias remetem a situações bem reais, bem calcadas no nosso presente: em que nível as crianças do internato diferem daquelas dos países pobres, vítimas de sequestro, ou vendidas para o tráfico de órgãos?  Nos países em que a vida vale pouco frente à demanda do capital, pessoas são exploradas, mutiladas, e repostas pelo estoque de mão de obra barata, formado por... outras pessoas.

Mark Romanek - Diretor

A imposição do capital sobre a ética e a moralidade já está acontecendo, e quando estamos muito alienados sobre nossa realidade é bom encontrar uma fantasia engajada que nos reapresente a ela, nos ajude a reconciliar, nos faça re-conhecer.